Gestores a rever qualidade dos dados

Porque a qualidade dos dados decide o valor real da inteligência artificial

4 setembro 2026 Equipa Deloravixa Dados e operações

Há uma confissão que ainda orienta o nosso trabalho: durante algum tempo, procurámos problemas nos painéis quando a falha estava na origem dos registos. A aparência era convincente. Os números estavam alinhados, os gráficos tinham boa leitura, mas cada equipa usava uma definição diferente para cliente ativo, pedido concluído ou prazo cumprido. Se uma organização pretende aplicar inteligência artificial nestas condições, a primeira pergunta deve ser incómoda: que significado tem cada campo e quem responde por ele? A resposta não está numa ferramenta adicional. Está num acordo operacional, documentado e compreendido por quem introduz, valida e utiliza os dados. Vejamos uma situação concreta. Uma empresa de distribuição regista encomendas em vários sistemas, enquanto a equipa comercial mantém uma folha própria para acompanhar oportunidades. Um mesmo cliente pode surgir com abreviaturas diferentes, moradas incompletas ou estados incompatíveis. Um modelo analítico poderá encontrar padrões, mas não saberá qual registo representa a realidade. Antes de qualquer aplicação avançada, mapeamos fontes, identificamos duplicados e definimos uma referência para cada informação relevante. Depois estabelecemos regras simples: formatos de data, responsáveis por correções, prazo de atualização e procedimento para exceções. A questão seguinte costuma ser: isto não torna o trabalho mais lento? Pelo contrário, uma regra visível reduz discussões repetidas e evita que cada colaborador invente a sua própria interpretação. As empresas que amadureceram depois de períodos de crescimento aprenderam uma lição semelhante: a escala expõe pequenas incoerências até elas se tornarem obstáculos diários. Por isso, começamos pelo essencial. Um dado útil é aquele que pode ser encontrado, interpretado, verificado e utilizado no momento certo.

A objeção mais frequente é clara: não deveríamos avançar diretamente para a inteligência artificial e corrigir os dados pelo caminho? Não recomendamos esse atalho. Quando a base contém lacunas, um sistema pode produzir classificações plausíveis, mas difíceis de explicar ou corrigir. O risco não está apenas no resultado incorreto; está na confiança excessiva depositada numa resposta que parece objetiva. Numa operação de apoio ao cliente, por exemplo, as mensagens podem ser agrupadas por assunto para encaminhamento interno. Parece uma tarefa simples. Contudo, categorias sobrepostas, exemplos antigos e pedidos urgentes sem marcação própria podem levar a prioridades inadequadas. A nossa metodologia interna segue três passos: definir, experimentar e supervisionar. Primeiro, definimos o propósito da aplicação, os dados permitidos e o critério de qualidade. Depois experimentamos com um conjunto limitado de casos representativos, incluindo situações pouco frequentes. Por fim, mantemos revisão humana, registo de alterações e uma forma clara de contestar uma classificação. Esta abordagem responde a outra dúvida legítima: quem é responsável quando uma recomendação não faz sentido? A responsabilidade não desaparece porque uma ferramenta participou no processo. A direção deve nomear um responsável operacional, a equipa técnica deve documentar limites e os utilizadores devem saber quando interromper o fluxo para análise manual. Privacidade também faz parte do desenho, não é uma nota acrescentada no final. Recolhemos apenas o necessário, restringimos acessos por função, definimos períodos de retenção e avaliamos a utilização de informação pessoal segundo as regras aplicáveis em Portugal e na União Europeia. A experiência acumulada em projetos de transformação mostra que a adoção é mais sólida quando as pessoas conseguem explicar o sistema aos colegas. Se ninguém sabe de onde veio uma indicação, será difícil mantê-la, melhorá-la ou questioná-la com responsabilidade.

Daqui a três anos, a diferença entre uma empresa preparada e uma empresa apenas equipada será visível numa reunião comum. Uma equipa preparada conseguirá explicar de onde veio o indicador, quando foi atualizado, que exceções existem e quem pode alterar a regra. Parece pouco. É precisamente essa clareza que permite substituir decisões baseadas em versões contraditórias por conversas produtivas sobre prioridades. Como se constrói esse resultado sem interromper toda a operação? Escolhemos um processo com impacto concreto e fronteiras fáceis de observar. Pode ser a previsão de procura, o encaminhamento de pedidos, a verificação de documentos ou a análise de atrasos numa cadeia de fornecimento. Em seguida, criamos um inventário simples das fontes, desenhamos o percurso do dado e definimos um pequeno conjunto de indicadores de qualidade: completude, atualidade, coerência e possibilidade de auditoria. Não prometemos que a tecnologia resolverá todas as dificuldades. O efeito depende do ponto de partida, da integração disponível, da disciplina das equipas e das decisões tomadas pela liderança. Ainda assim, a estrutura torna os próximos passos mais seguros e compreensíveis. Se o teste revelar pouca qualidade, corrigimos o processo antes de ampliar. Se revelar valor, documentamos o método, atribuímos responsabilidades e avançamos por módulos. A escalabilidade surge então de uma repetição controlada, não de uma compra apressada. Também desafiamos uma suposição comum: a transformação não precisa de começar com um grande programa transversal. Um caso bem delimitado pode mostrar onde estão os ganhos de tempo, quais regras precisam de revisão e que dados merecem investimento. É assim que trabalhamos com equipas experientes: ouvimos quem conhece as exceções, examinamos o fluxo real e traduzimos objetivos de negócio em decisões observáveis. Se pretende avaliar a qualidade dos seus dados antes de escolher uma aplicação, convidamo-lo a conversar connosco sobre um processo específico. A primeira resposta útil pode estar numa pergunta bem formulada.